Cônsul Geral celebra 8 de maio em cerimônia no Lycée Pasteur [fr]

Colégio francês celebrou a data com emocionante discurso do Consul Geral da França e a participação de membros do Consulado e da diretoria do Liceu.

O colégio francês Lycée Pasteur celebrou o dia 8 de maio com uma cerimônia emocionante, onde estavam presentes o Consul Geral da França, Brieuc Pont, membros do Consulado da França em São Paulo, a Diretoria do colégio e a Fanfarra da Policia Militar que tocou os hinos nacionais do Brasil e da França.

Veja as fotos do evento:

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Na ocasião, o Cônsul Geral discursou aos presentes. Confira:

Cerimônia em comemoração à Vitória de 8 de maio de 1945
Discurso do Cônsul Geral da França em São Paulo

Lycée Pasteur - 8 de maio 2018

(Cumprimentos)

Há 73 anos encerrava-se na Europa o conflito mais destruidor da história da Humanidade.

O tempo passa e os que vivenciaram as dores e os horrores deste conflito estão cada vez menos numerosos para testemunhar.

O tempo passa e as relações entre as Nações evoluem. Hoje, a França e a Alemanha, os Estados Unidos, e também muitos dos países que se enfrentaram há quase três quartos de século estão agora profundamente enraizados no campo do mundo livre através de sólidos laços de amizade. Um mundo em paz, aonde o direito reina sob a potência.

O tempo passa e a guerra se torna uma ideia difusa, uma loucura distante no tempo e longínqua no mundo, e se esta permanece uma realidade, é frequentemente através da protetora tela de um televisor. O tempo passa e com ele cresce o risco de nos esquecermos dos ensinamentos deste terrível conflito, no qual uma ideologia mortífera quase pôs fim para sempre à civilização europeia.

É todo o sentido do dever de memória, manter as lições das provações pelas quais nossos antepassados, pais, avós e bisavós passaram. Sua experiência se tornou testemunho. Seu testemunho, uma vez transmitido, é um precioso tesouro para a civilização. Juntos, graças a eles, aprendemos a fortalecer nossa sociedade. Primo Levi, uma gigantesca testemunha do Holocausto, nos adverte dizendo que "quem não tem memória não tem futuro".

Este é o significado do trabalho dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo 70º aniversário celebra-se este ano. Eles quiseram dar a uma humanidade traumatizada pela guerra uma bússola para sair da escuridão moral em que havia mergulhado. Berthold Brecht, um dos muitos oponentes alemães do nazismo que assolou a Alemanha e toda a Europa, também nos adverte: "Ainda está fértil a barriga de onde a besta imunda surgiu”. Sim, a Humanidade está em perigo diante de perigos bem conhecidos, como o nacionalismo, o populismo, mas também diante de novas formas de totalitarismos, como os que são defendidos pelo fanatismo religioso. Penso neste momento nos soldados franceses e seus aliados, que no Oriente Médio e no Sahel, lutam para garantir nossa segurança e nossa liberdade.

É o dever de memória que mantém nosso desejo pela humanidade, nosso desejo de defender os nossos valores contra essas ameaças. Diante da arrogância, do arbitrário, do obscurantismo, de todos os totalitarismos, o dever de memória ajuda-nos a lembrar do significado do sacrifício heroico de incontáveis combatentes pela liberdade de seu país e de seus semelhantes, mas também de milhões de vítimas civis dos quais esta guerra a vida tirou. Que lugar melhor do que uma escola para fazê-lo viver?

A lição que coletivamente aprendemos com esse terrível conflito mundial, além das fronteiras, é que não pode haver espaço para o totalitarismo, para o obscurantismo. A característica do ser humano, onde quer que haja injustiça, é senti-la e querer combatê-la. Alguns pagam sua vida por essa coragem e são eles, cujos nomes estão inscritos atrás de mim, que saíram de São Paulo para fazer viver o seu país e que morreram pela França. Este espírito é o espírito de resistência.

Há algumas semanas, no último dia 23 de março mais precisamente, no Sul da França, diante da nova face da besta imunda, o espírito de resistência despertou. O Coronel Arnaud Beltrame ofereceu sua vida a um terrorista cujo nome deve ser esquecido, em troca da vida de outro ser humano. O cumprimento de sua missão se tornou um último sacrifício, como o Presidente da República disse com muita justeza: " Todos nós, franceses, então trememos com uma emoção singular. Um de nós tinha acabado de se levantar, reto, lúcido e corajoso".

O campo da liberdade, da França, da Alemanha, dos Estados Unidos, de todos os países aqui presentes, todos aqueles que valorizam a vida, os ensinamentos da 2ª Guerra Mundial, são confrontados hoje a um obscurantismo bárbaro que nega o valor que damos à vida. "Valor negado pelo terrorista de Trèbes. Valor negado, assim como recordado pelo nosso Chefe de Estado, pelo assassino de Mireille Knoll, que assassinou uma mulher inocente e vulnerável porque era judia e que assim profanou nossos valores sagrados e nossa memória". Sim, Berthold Brecht estava certo, a besta imunda ainda está entre nós.

O sacrifício do Coronel Beltrame e o assassinato de Mireille Knoll nos lembram deste dever de memória: ele é o cimento da nossa sociedade sem o qual não podemos resistir. Suas mortes nos lembram que somos vulneráveis e que, em todos os lugares, se os esquecermos, é nossa humanidade que estará em perigo. Dentro de alguns instantes, os alunos do 8° ano cantarão “Le Chant des Partisans”, uma magnífica ode à resistência escrita em Londres em 1941 por Joseph Kessel e Maurice Druon.

"Amigo, se caires,
Um amigo sai das sombras em seu lugar"

"Cantem, companheiros, Na escuridão da noite, a liberdade nos escuta ..."
... diz o Chant des Partisans.

Peço-lhes, ao ouvi-lo para que tenham um pensamento por todos aqueles que foram vítimas dos inimigos da liberdade e por todos os que caíram ao confrontá-los. Estejamos prontos, nós também, a ter a força a qualquer momento de sair da sombra.

Muito obrigado.

publicado em 15/05/2018

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