O escritor Ignacio de Loyola Brandão fala sobre o concurso da Francofonie 2012

Nesse texto, o escritor fala da emoção que a pequena cerimônia lhe provocou. Confiram as palavras dele.

Paris provoca desmaios

Nesta minha vida, nem sei quantas vezes estive presente à entrega de prêmios, os mais diversos. Porém houve um especial, que me comoveu. Porque me fez lembrar aquele Ignácio jovem ainda em Araraquara, nos anos 50, quando o sonho era ir a Paris. Toda minha geração sonhou com a França. Com a Paris que vinha pelas aulas de francês, pelos autores que a professora Fanny nos fazia ler, pelo cinema de René Clair, Claude Autant-Lara, Marcel Carné, pelos poemas de Prévert, pela voz de Montand, Henry Salvador, Jacques Pills, e depois Johnny Halliday, Dalida, Françoise Hardy.
Convidaram-me para a entrega do prêmio Allons en France 2012. Os concorrentes deveriam escrever, em francês, é evidente, uma redação sobre Les Droits de l’Homme au XXI° siècle : de nouveaux défis. Deveria ser algo curto e sintético. Fui ao consulado da França e tive um acesso de nostalgia, lembrando aquela época em que, de tempos em tempos, ali íamos buscar o visto. Era necessário. Hoje tudo mudou. O ganhador foi Renan de Oliveira Ribeiro, de 21 anos, aluno da Alliance Française (Jardins). Renan, com seus 21 anos, chegou quieto e tímido, um olhar um pouco assustado. Ao mesmo tempo orgulhoso, me pareceu. Ali estavam o Consul Geral, Sylvain Itté, a adida de cooperação, Anouchka de Oliveira, a assistente Ivone Figueiredo e Caroline Vabret. Era uma cerimonia simples. Mas com croissants, um símbolo nacional.
O consul Sylvain pediu a Renan, o ganhador, que se apresentasse em francês, e ele o fez. Breves palavras, também curta é a vida dele. Então, veio a hora dele ler a redação premiada. Uma surpresa. Diante de mim estava um jovem que sabia escrever bem, sabia economizar palavras, tinha poder de síntese, expunha rapidamente seu pensamento. Ora, estou me habituando a uma verdade dura. Os jovens brasileiros não conseguem desenvolver uma ideia em redação. Não sabem alinhavar as palavras. Renan, no entanto escreveu muito bem. E em outra língua e com um tema complexo. Ali estava alguém que merecia o prêmio.
Neste momento, eu pensava: que inveja! Quando, nos meus 20 anos, apareceu uma oportunidade dessas? Eu teria me agarrado, lutado combatido, queria vencer, ir a Paris. O jovem Renan conseguiu isso por meio da palavra.
E de repente, a emoção foi mais forte. O estresse (porque felicidade também provoca estresse) se fez sentir. Enquanto lia, Renan foi empalidecendo, a voz diminuindo. Talvez sonhasse com Paris, Louvre, Museu D’ Orsay, Quartier Latin, Luxemburgo, Deux Magots, Centro Pompidou, Follies Bergéres. Não, o Follies não é da geração dele, é coisa antiga. Foi tudo forte demais e Renan se entregou. Pela primeira vez na vida, vi alguém desfalecer de alegria e contentamento. O jovem desabou, foi cuidado, retomou o texto. Também, não era para menos. Se na idade dele eu tivesse ganho um premio desses, teria caído duro e levaria anos para me recuperar.

Ignacio de Loyola Brandão, 75 anos, escritor e jornalista, tem 35 livros publicados entre romances, contos, cronicas, viagens, infantis e uma peça de teatro. Ele recebeu o Premio Jabuti 2008 com o livro "O Menino Que Vendia Palavras" e premio Fundação Nacional do Livro Infanto Juventil em 2012 com o livro "A Morena da estação". Ele publicou ha pouco tempo no Estado de São Paulo um artigo sobre como a lingua francesa tem o poder de deixar as pessoas mais felizes.

publicado em 31/03/2014

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